A falta de competitividade das exportações de veículos argentinos segue impactando a operação industrial. A General Motors interrompeu a atividade uma semana por mês em sua planta de Santa Fé
A planta da General Motors em Santa Fé manterá ao longo de todo o ano de 2026 o mesmo volume de produção do Chevrolet Tracker, com o mesmo esquema de trabalho adotado desde julho de 2025, ajustado à menor demanda das exportações.
Alguns definem o momento como uma ponte entre o que existia e o que virá. Outros o descrevem como uma crise global, entendendo que não se trata de uma má notícia, mas sim de uma mudança no cenário internacional que obriga muitos a ocuparem um papel diferente do anterior.
Não é um período confortável. Pelo contrário, exige paciência, negociações constantes e, sobretudo, bom senso e honestidade intelectual de todas as partes envolvidas para encontrar o melhor caminho.
O que está acontecendo é que, à já conhecida falta de competitividade da indústria automotiva argentina, que carrega cerca de 12 pontos percentuais de impostos em cada carro exportado, somam-se agora condições ainda mais desafiadoras nos países compradores, onde a presença de marcas chinesas é cada vez maior e mais agressiva.
Recentemente, nos Estados Unidos, o presidente da Ford Argentina e Ford América do Sul, Martín Galdeano, afirmou à Infobae que não o surpreenderia o fechamento de fábricas de automóveis na Argentina caso não haja mudanças significativas, como uma redução considerável da carga tributária que recai sobre as montadoras locais.
A Associação de Fábricas de Automotores (Adefa) mantém uma agenda de trabalho com o governo nacional, na qual está sempre em discussão a eliminação das tarifas de exportação e de outros tributos, como o imposto sobre débitos e créditos. No entanto, o imposto mais prejudicial é o de Ingresos Brutos, de competência provincial, que representa 70% da carga tributária que pesa sobre as exportações.
A nova Chevrolet Tracker foi um sucesso de vendas em 2025, com crescimento de 61% no número de veículos emplacados em relação a 2024.
O caso Chevrolet
O esquema industrial da General Motors, que prevê uma semana de paralisação por mês na planta de Alvear, em Santa Fé, não é novidade. Ele está em vigor desde meados de 2025 e está diretamente ligado à necessidade de ajustar o volume de produção à demanda de exportações do Chevrolet Tracker.
Em julho de 2025, a empresa informou que a medida se baseava na dinâmica das exportações no atual cenário sul-americano e que não afetaria o abastecimento do mercado argentino nem os investimentos necessários para atualizar a planta para a nova geração do Tracker.
Inicialmente, o esquema estava previsto até dezembro de 2025, mas a companhia confirmou que o mesmo funcionamento será mantido durante todo o ano de 2026, já que o volume de produção será igual ao do ano anterior.
Em 2025, a Chevrolet foi a marca generalista que mais cresceu no mercado argentino, passando de 23.592 unidades em 2024 para 46.322 veículos em 2025, um aumento de 96,3% em 12 meses, elevando sua participação de mercado de 6% para 8%.
Esse crescimento não se deveu apenas a modelos importados. O Chevrolet Tracker registrou alta de 61% nas vendas em 2025, passando de 10.950 unidades em 2024 para 17.647 unidades, enquanto o mercado automotivo argentino como um todo cresceu 47,8% no mesmo período.
Esses números evidenciam um problema estrutural de competitividade da indústria automotiva local, especialmente entre fabricantes de carros compactos e SUVs, que registraram quedas nas exportações no último ano. A exceção foram os fabricantes de picapes, que conseguiram ampliar as vendas externas.
As exportações da indústria argentina
A situação não é exclusiva nem recente, tampouco afeta apenas uma montadora. A primeira a enfrentar esse processo foi a Renault, que iniciou a transformação da planta de Santa Isabel em um polo de veículos utilitários leves e picapes com forte foco na exportação.
Entre setembro de 2023 e julho de 2026, o projeto — que culminará com o início da produção da picape atualmente conhecida como Niágara Concept — exigiu a descontinuação de modelos e a reorganização do quadro de funcionários.
Esse processo incluiu o fim da parceria entre Renault e Nissan, que resultou na interrupção definitiva da picape Renault Alaskan, desenvolvida em conjunto com a Nissan Frontier. Posteriormente, foram encerrados os ciclos produtivos dos modelos Sandero, Stepway e Logan.
Durante todo esse período, houve diálogo constante com o Smata Córdoba e a abertura de um programa de demissões voluntárias, especialmente voltado a funcionários próximos da aposentadoria. A empresa anunciou que, com o início da produção da nova picape, haverá um aumento no número de empregados, de acordo com o novo programa industrial.
A Volkswagen também atravessa um período de transição em sua planta de General Pacheco, com a renovação da VW Amarok, cuja nova geração está prevista para 2027.
A partir de 2026, a montadora decidiu concentrar toda a produção da unidade em um único modelo, deixando de fabricar o SUV Taos. A nova Amarok não terá versão V6, pois será um produto regional, e essa motorização não atende às normas ambientais, especialmente no Brasil.
Entre julho de 2025 e o início da produção da nova Amarok, a Volkswagen atravessará um período de transição industrial, com redução do pessoal operacional, mas sem cortes estruturais. A empresa adotou um sistema de rodízio, no qual parte dos trabalhadores ficará temporariamente afastada até 2027, alternando períodos de descanso e atividade.
